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Setembro 2016
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n. 8


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Casa del Pellegrino

Homem e Sociedade

Jesus procurava as pessoas que a sociedade se recusava a ver. E nós andamos atrás de quê ou, melhor, de quem? Procuramos criaturas virtuais, procuramos seres que não existem? Procuramos ser pessoas virtuais ou tentamos ser pessoas virtuosas?

Será que Jesus jogava Pokémon?

Pe. Nuno Santos

Um polícia tailandês segura um cartaz onde se lê “Não jogue Pokemon Go enquanto conduz, os infratores serão multados”.
Um polícia tailandês segura um cartaz onde se lê “Não jogue Pokemon Go enquanto conduz, os infratores serão multados”.
Recentemente foi lançado mais um jogo da Nintendo – o famoso Pokémon go. O conceito do universo Pokémon (abreviatura da marca japonesa Pocket Monsters) foi inspirado no passatempo do diretor executivo Satoshi Tajiri de colecionar insetos quando era criança. A ideia base é centrada em criaturas ficcionais, chamadas precisamente ‘Pokémon’, que os seres humanos capturam e que depois treinam para lutarem uns contra os outros.
Apesar deste ‘universo’ ter sido criado em 1995, chega agora uma ‘atualização’ que lhe deu novo ‘impulso’ – esta caça aos ‘monstros’. Trata-se de procurar estas criaturas virtuais no mundo real. Ou seja, por sistemas de navegação (GPS) podemos procurar as ditas criaturas nos locais mais inesperados (jardins públicos, adros de igrejas, estações de comboios, parques de estacionamento…).
O negócio vai de vento em popa para os criadores do jogo, para quem vende carregadores portáteis (uma vez que o jogo consome muita bateria), para os tarifários (uma vez que o jogo exige que os dados móveis estejam ativos), para as companhias de seguros que cobrem os ‘acidentes’, que possam existir durante o jogo…

Um cristão deve ou não ‘envolver-se’ no jogo?

Este não será apenas mais um jogo? O que é que um jogo destes nos pode fazer refletir? Qual o lugar do jogo e do lúdico na vida de uma pessoa? Um cristão deve ou não ‘envolver-se’ no jogo?
Primeira coisa que importa dizer é que eu não sou um especialista, nem em jogos, nem em moral. Sou apenas um observador. Enquanto tal, penso que devemos ter um olhar permanentemente crítico acerca do que somos e do modo como vivemos e, sobretudo, acerca do que nos humaniza e do que nos desumaniza.
Falando nos jogos, em geral, temos que começar por dizer que há muitos tipos de jogos: jogos tradicionais, jogos de tabuleiro, jogos de cartas, jogos de computador, jogos olímpicos, jogos de sorte e azar… Podemos dizer que há, sobretudo, jogos individuais e jogos coletivos, jogos reais e jogos virtuais. No entanto, todas estas distinções estão, hoje, cada vez mais ‘diluídas’.
Podemos olhar para os jogos como oportunidades de ‘descanso’, de convívio, de descontração, de celebração da amizade, de aprendizagem, de reflexão, de união e de identidade. De facto, o jogo pode ser usado, para ‘ensinar’ muitos valores e muitos princípios − bastaria pensar nos jogos tradicionais em muitas festas populares, nos últimos jogos olímpicos do Rio de Janeiro ou no Euro de Futebol em França. Efetivamente, o jogo pode ser usado como uma excelente pedagogia, como acontece, por exemplo, na pedagogia do escutismo.

Jogo – limites, desvios e interesses

Mas, como em tudo, há limites, há desvios e há ‘instrumentalização’. Pensemos nos interesses económicos, nos ‘salários’ exorbitantes que alguns desportistas ganham, pensemos nos resultados ‘comprados’, na ‘batota’, no ‘doping’, na violência e, especialmente, na dependência… Quantas vidas e famílias destruídas pelo vício do jogo?!
Em concreto, o Catecismo da Igreja Católica diz que “Os jogos de azar (jogo de cartas, etc.) e as apostas não são, em si mesmos, contrários à justiça. Mas tornam-se moralmente inaceitáveis, quando privam a pessoa do que lhe é necessário para as suas necessidades e as de outrem. A paixão do jogo pode tornar-se uma grave servidão” (CIC 2413).
Voltemos ao jogo Pokémon go. Trata-se de um jogo essencialmente individual e essencialmente virtual. Em si este jogo não tem nada de mal, contudo, o facto de muitas pessoas ficarem dependentes, o facto de reforçar o sentido individualista da vida, o facto de ‘ligar’ o virtual ao real… são limites que podem trazer muitos problemas concretos. Bastaria recordar algumas notícias onde ficamos a saber que este jogo foi usado para atrair pessoas, para assaltar pessoas, ou então pessoas que ficaram feridas porque não repararam em obstáculos e até há relatos de alguém que deixou o emprego por causa do vício…

Jesus jogaria ou não Pokémon

No entanto a nossa pergunta é se Jesus jogaria ou não Pokémon. Definitivamente a pergunta não parece fazer muito sentido, nem nunca conseguiríamos uma resposta que fosse satisfatória. O que podemos é ‘arriscar’ uma resposta que seja coerente com o testemunho que nos é dado pelo evangelho.

Quando lemos o evangelho, ficamos com a certeza que Jesus valoriza a relação pessoal, que celebra em grupo e que aposta no concreto e no real. De facto, Jesus não precisa de criar mundos imaginários para viver, ainda que conte parábolas para ensinar. Jesus não anda atrás de figuras virtuais, ainda que ‘procure’ pessoas que a sociedade se recusava a ‘ver’.

E nós andamos atrás de quê? Ou melhor ainda, andamos atrás de quem? Também procuramos criaturas virtuais, procuramos ‘seres’ que não existem? Procuramos ser pessoas virtuais ou tentamos ser pessoas virtuosas?
Jesus não se cansa de nos procurar. Não desiste de nós. Talvez nós possamos andar distraídos à procurar d’Ele no virtual quando Ele se revela nas pessoas reais e nos acontecimentos concretos. É este concreto e este real que celebramos, de modo muito especial, em cada sacramento – onde o humano e o divino se tocam e se realizam.


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