Ora havia lá (e há ainda) umas alminhas
Com um painel antigo sobre o oratório
E tem esta legenda: ó vós que ides passando,
Não esqueçais a nós neste lume penando.
(António Nobre, in Só)
As Alminhas! O que são?
Podemos dizer que as Alminhas são a materialização plástica de uma das mais singulares, fortes e duradouras manifestações da piedade cristã de raiz popular, a devoção às Almas do Purgatório.
A génese desta devoção, a sua razão de ser e o seu florescimento têm por base a crença de que a alma dos justos, após a morte do corpo, terá de suportar uma margem de sofrimento proporcional às imperfeições, aos pecados ligeiros (os que não implicam, como os pecados capitais, a morte da alma) num lugar intermédio entre a terra e o Paraíso, o Purgatório, como foi designado.
A tradição apostólica bebeu esta doutrina em antigas práticas judaicas e os Padres da Igreja suportaram-na e ampliaram-na em seus escritos aceites em toda a cristandade como verdadeiro corpo de doutrina. Não sem contestação, todavia. Primeiro por parte dos teólogos orientais que, em acesas discussões, pelos meados do século XIII, negavam mesmo a existência do Purgatório, mais tarde por parte de Martinho Lutero que recusa as indulgências e nega a eficácia dos sufrágios no que é seguido por Calvino e Zwinglio.
A Igreja institucional respondia às formulações heréticas com as vigorosas teses dos concílios, o II de Leão (1274) e o de Florença (1439), que afirmam como verdade a existência do Purgatório e a validade da oração e respondia às teses contra-reformista com a aprovação, na XXV Sessão do Concílio de Trento, no final de 1563, do dogma da existência do Purgatório (Purgatorium esse - O Purgatório existe).
O povo cristão interpretava por seu lado a resposta da Igreja e multiplicava as formas, os caminhos para chegar junto das almas dos irmãos em sofrimento e soltá-las.
Orações, missas, esmolas, tudo valia. E a voz dos responsáveis e os textos divulgados ampliaram-se com a expansão de gravuras de fácil entendimento e de pinturas apelativas que fortemente tocavam apuradas sensibilidades. Foi assim em toda a Europa Católica. E em Portugal também. Só que em Portugal, mais no Norte que no Sul, e também na Galiza se singulariza uma forma de interceder pelas Almas do Purgatório.
A doutrina do Concílio de Trento impõe-se de forma fácil, muito contribuindo para o efeito a militância dos padres da Companhia de Jesus, a pregação dos Frades Menores e as missões dos Carmelitas que fomentaram também a criação das Irmandades das Almas, tão caras aos modos de ser das comunidades tanto urbanas como rurais. E foram provavelmente estas quem mais terá contribuído, através de uma pedagogia própria e de uma didáctica nova, para a divulgação e intensificação de uma prática vinda de longe, vinda de sempre.
Instituídas nas igrejas onde cedo se instalaram com capela própria definiram ajustadas formas de intervenção onde decerto teve grande relevância a prática artística de execução de retábulos, de pintura de bandeiras com uma iconografia típica que se afirmava na Europa do Sul desde há muito e onde o aparato de uma fogueira significava o Purgatório, os corpos desnudos as almas dos justos que anjos vinham retirar logo que limpas de imperfeições.
Costuma dizer-se que foi o pintor Santo de Lisboa, Luís Álvares de Andrade (c.1550-1631) quem, numa atitude verdadeiramente apologética, se entregou à divulgação do culto das Almas utilizando como instrumento de enorme eficácia a pintura de tabuinhas com a representação do Purgatório, que pregava nas portas da cidade e noutros lugares públicos, prenunciando já o seu formulário o estilo que irá encontrar-se mais tarde em mil retábulos.
O reino tornou-se um território de missão e é decerto nos começos do século XVII que as representações do Purgatório ultrapassam os umbrais dos templos e extravasam depois às praças, aos largos ganhando, no século XVIII, os caminhos todos, as encruzilhadas, a montanha.
Complementam num primeiro tempo a função mais explícita dos cruzeiros e autonomizam-se depois, preenchendo lugares homólogos. Tornam-se morfologicamente pequenos templetes que abrigam a ingenuidade de expressivos retábulos pintados sobre adequados revestimentos, a fresco ou a têmpera ou sobre madeira, Folha de Flandres que os rigores do clima desfiguraram com o tempo. Geraram-se às vezes, conforme a região, específicas modulações, estilos pode dizer-se, gramáticas de um canteiro e de ilustradores chamados por comunidades vizinhas em franca emulação.
Ainda não foi realizado no país um verdadeiro estudo das Alminhas. E só numa geografia vasta se conseguem distinguir sumárias características numa circunstancial enumeração dos registos. E temos assim o Minho carregado de pequenos templetes geralmente protegidos por gradezinhas de ferro, uma Beira granítica levantada de estelas ao alto com os nichos pouco profundos das representações perdidas e os relevos baixos de cruzes e pináculos que configuram o jeito da igreja, Trás-os-Montes com semelhanças formais à Beira e abundantes nichos cravados na largueza das rochas que descem até aos caminhos.
Nas margens do Mondego, descendo até ao Tejo, voltam os pequenos templos, mas são raros. A devoção aqui ficou mais dentro das igrejas, tal como no sul, nesse Alentejo imenso que gerou todavia riquíssimos retábulos guardados nas Capelas de Irmandades.
Os homens passavam de manhã...
Nas praças, às vezes, pelos caminhos fora, em encruzilhadas, nas pontes, em todas as saídas ou entradas dos povos, levantaram-se estes monumentos. Era urgente ser solidário, porque era de solidariedade que se tratava aqui.
As legendas pintadas no quadro em poética toada - Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós neste lume penando - recordavam inocentemente uma das virtudes da vizinhança, outras vezes, com alguma ironia, incitavam os mais distraídos: Nós penamos e vós zombareis, / mas lembrai-vos que como / Nós sereis.
Os homens passavam de manhã e de tarde a caminho dos campos. Descobriam-se e rezavam. Passavam pastores, romeiros, feirantes, almocreves como o Malhadinhas, cujas palavras Aquilino Ribeiro nos guardou: Eu a todos tirava o chapéu, e também a capelinhas, nichos de almas e cruzes de homem morto que serapintam o caminho.
Havia quem pusesse flores, às vezes, quem acendesse velas, quem enchesse de azeite a lamparina pendurada numa haste de ferro. E então eram votos ou promessas que se cumpriam. Porque as Alminhas eram santos cuja entrada no Paraíso estava apenas diferida. E deixavam-se-lhes mensagens, recados, pedidos, que mais tarde levariam ao céu. É este espírito que está presente no dizer de José da Silva Picão quando, no seu livro Através dos Campos, recorda promessas de trabalhadores migrantes: Ao partirem das suas terras, cada qual promete quarenta réis às Alminhas, se regressarem com saúde.
Para tal havia cofrezinhos cavados na pedra com tampa de ferro chumbada e uma chave entregue a um mordomo. E com as pobres moedas recolhidas rezavam-se missas na igreja ou dava-se a um pobre a esmola de um caixão.
Nenhuma devoção popular ganhou, como esta, a alma do grande povo, que também rezava na igreja, mandava celebrar missas sem conto, oferecia esmolas de pão cozido quando um cônjugue morria, pagava alqueires de trigo como encomendação de uma alma, ao domingo, participava nessa quase secreta cerimónia da Encomendação ou Amentação das Almas, na Quaresma, rezava padre-nossos ao findar o almoço nos dias da matança do porco.
Nenhuma devoção se tornou mais duradoura, mesmo que não se tivesse mantido o esplendor de setecentos. O tempo atenuou certas feições no século XX. Veio uma vez, nos anos 50, uma campanha em jeito de missão. Frutificou de certa maneira, porque o povo era o mesmo. Mas os azulejos pintados não seduziram por muito tempo a gente. A devoção interiorizou-se mais. Os monumentos de pedra foram-se esquecendo como os caminhos velhos que se abandonaram, trocados por outros caminhos.
As memórias vão ficando, aguardando o nosso olhar sobre elas, para as recuperarmos como tal, como memórias, como património, como factor que contribuiu para definir uma identidade. A nossa.
Para saber mais
ALENDE; Xosé Fuentes, Arte Religioso Popular, Galicia. Antropologia, Hércules Ediciones, S.A, A Coruna, 1997.
BABO, padre Francisco de, Alminhas, Padrões de Portugal Cristão. Ermesinde, 1968.
CARDOSO, Carlos Lopes, Santo António e as Alminhas Populares, Sep. do Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 87, 1981.
CORREIA, Alberto, Alminhas. Catálogo de Exposição Temporária, Assembleia Distrital de Viseu, Viseu, 1982.
CORREIA, Virgílio, Etnografia Artística Portuguesa, Barcelos, 1937.
GONÇALVES, Flávio, Os Painéis do Purgatório e a Origem das Alminhas Populares. Sep. do Boletim da Biblioteca Municipal de Matosinhos, N•. 6, 1959.
PINHEIRO, Luís, Alminhas, Nichos e Crazeiros de Portugal, Braga, 1957.
SILVA, Madalena Cagigal e - Pintura, em A Arte Popular em Portugal, Vol. 2 Lisboa, s/data.
TOTAL, Manuel João Maria, Alminhas, Câmara Municipal de Oliveira de Frades, 1997.
VENTURA, Jorge, Alminhas no Vale do Bestança, Terras de Serpa Pinto, N.º 6, Janeiro 1997, Câmara Municipal de Cinfães, 1997, pp. 55-63.